quinta-feira, 2 de junho de 2011

Comunidade de Portão se despede de líder cultural

Raimundo Nonato das Neves na Micareta de Portão 2010 - Foto: Fabiano Bluz
Sob cantos bantos de consternação, foi enterrado na manhã desta quinta-feira (2), no cemitério de Portão, Lauro de Freitas, Raimundo Nonato das Neves, um dos mais expressivos representantes da cultura afro na Bahia. No candomblé, o líder comunitário pertencia a nação angola, e era reconhecido pelo dijina (nome sagrado) de Kasutemi. De acordo com o superintendente municipal de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Eriosvaldo Menezes, ogan da nação keto, o ritual continuará com o mukondo, que é uma atividade só para os iniciados, que “guiará o espírito para um patamar mais elevado”. Também presidente do Conselho de Cultura e integrante da Academia de Artes e Letras do município, Raimundo Neves tinha 49 anos e faleceu na terça-feira (1), após intervenção cirúrgica no abdome.

Como presidente do Bloco Afro Bankoma, que desfila há nove anos no circuito Osmar, carnaval de Salvador, desenvolvia, desde 1995, junto à comunidade de Portão, onde nasceu, diversas atividades sócio-culturais. O espaço onde são oferecidas oficinas de tecelagem, confecção de instrumentos musicais e de adereços africanos, dança afro, capoeira entre outros, se tornou o Ponto de Cultura da Goméia, adotando o nome do terreiro onde é sediado – São Jorge Filho da Goméia. O tata (título do sacerdote que não entra em transe) Raimundo Kasutemi era neto da também ilustre Mãe Mirinha de Portão, importante líder do candomblé, falecida em 1989.

O historiador Gildásio Freitas salientou a importância social do trabalho realizado pelo Kasutemi. “Apesar da comunidade ser considerada violenta, podemos dizer que os jovens que participam do Bankoma estão livre da criminalidade”. O cantor Tonho Matéria, também presente ao enterro, disse que em julho viajariam juntos para apresentação na Áustria: “Era uma figura que conseguia movimentar a cultura. Perdi um amigo. Estou muito abalado” - desabafou. O fundador do Malê Debalê, Raimundo Bujão, espera que o poder público dê continuidade ao trabalho desenvolvido por Raimundo Neves. “Esta seria a homenagem justa à figura e à luta que ele empreendeu”.

O presidente da Associação Cultural de Preservação do Patrimônio Bantu (Acbantu), Raimundo Nonato Konmannanjy, revelou que o Kasutemi se diferenciava por conseguir mediar conflitos com facilidade. “O ancestral dele era de paz. Foi um grande líder. A gente o considerava como o guerreiro da cultura banto na Bahia”. O secretário municipal de Governo, Ápio Vinagre, vai assumir a presidência do Conselho de Cultura de Lauro de Freitas, onde Raimundo Neves estava à frente há dois anos. “Graças ao trabalho desenvolvido por ele, o Ponto de Cultura da Goméia é referência nacional, cuja importância é reconhecida pelo Ministério da Cultura”.

A prefeita de Lauro de Freitas, Moema Gramacho, que esteve desde a manhã de ontem ao lado da família, também esteve presente à despedida, para dar seu último adeus. Moema destacou o trabalho social liderado por Raimundo Nonato no Terreiro da Goméia e seu incentivo à cultura no município. “Era parceiro e um grande incentivador dos grupos culturais, dos projetos pela paz, das ações com jovens e adolescentes”.

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